Diablo® III

Apresentando: A Ordem por Nate Kenyon

Apresentando: A Ordem por Nate Kenyon

A Ordem, o romance que segue a jornada de Deckard Cain em sua busca pelo Horadrim anos antes dos eventos decorrentes no game Diablo III, já está disponível em pré-venda no Brasil, totalmente em português. 

Sobre Diablo III: A Ordem

Deckard Cain é o último dos Horadrim. Último sobrevivente da misteriosa e lendária ordem. Enquanto busca os integrantes perdidos de sua ordem, Deckard acaba forjando uma aliança improvável. Leah, uma menina de apenas 8 anos, temida por carregar uma maldição diabólica, pode ser a única esperança para impedir o caos. Mas qual é o seu segredo? Como está relacionado à Profecia do Fim dos Dias?

E se existem mesmo outros Horadrim, serão eles capazes de se unir e lutar contra a aniquilação e o esquecimento? Essas são as questões que norteiam a busca de Deckard. Perguntas que precisa responder...

...antes que seja tarde demais.

Autor: Nate Kenyon
Lançamento: 24 de outubro
Capa dura, 350 páginas
Editora: Record

Leia um trecho do livro logo abaixo e confira a pré-venda disponíveis nas seguintes lojas.

    

Ruínas do Repositório Secreto dos Vizjerei,

Fronteiras, 1272

Em meio à imensa e profunda escuridão do que aconteceu em seguida, haveria pouco tempo para meditar sobre o momento em que o esfacelamento da linha divisória entre este mundo e o outro se acelerou até sair de controle. A explosão na montanha tinha se parecido com dois guerreiros investindo para a própria ruína, com espadas se movendo em relances, que pareciam ter saído ilesos do impacto por um instante antes de começarem a cambalear, abrindo as bocas sangrentas, e caírem de joelhos, feridos mortalmente.

Mas talvez aquele fosse o momento, no calor infernal e eterno das Fronteiras, com as ruínas assomando a distância. Quando os dois viajantes se aproximaram do topo da última duna, talvez tivessem ouvido um retinir, como um pedaço de metal atingido por um martelo e vibrando numa frequência fora do espectro auditivo que os deixara inquietos.

A dupla parou para beber água. A luz do sol faiscava pela extensão interminável de areia e queimava a pele. O mais jovem, um orgulhoso guerreiro de Hespéria usando armadura dourada e portando um escudo vermelho, deu uma cusparada amarela e enxugou o rosto brilhante de suor com um trapo, e então bebeu fartamente do cantil antes de entregá-la ao companheiro.

O outro homem, que usava uma túnica cintada cinzenta com capuz e levava uma mochila às costas, trocou o cajado de mão para aceitar o cantil e bebeu. Seu cinto era gravado com padrões estranhos cor de sangue seco. Ele era magro o suficiente para sacudir ao vento, e sua longa barba e cabelos brancos e rebeldes o fazia parecer um pouco louco, mas havia uma força nele que se tornava mais aparente à medida que viajavam. Ele caminhava num passo constante, não importava a hora do dia ou da noite, e o jovem frequentemente tinha que se esforçar para acompanhá-lo.

O ancião apontou para a direita, onde se podia ver uma leve depressão na areia que seguia em linha por uns 6 metros antes de desaparecer.

— Um mangual irrompeu dali para se alimentar — indicou ele. — Eles se tornam mais agressivos com o cair da noite. Precisamos tomar muito cuidado.

O final do caminho estava salpicado de pontos vermelho-escuros. Sangue. O jovem já ouvira falar dos manguais, feras terríveis como dragões com dentes monstruosos e garras que podiam dilacerar um homem. Ele podia lutar com sua espada contra qualquer criatura de carne; eram as criaturas do além as mais ameaçadoras, ele pensou, embora jamais tivesse encontrado uma. Mas ao olhar para o velho, sabendo ligeiramente sobre as cicatrizes que ele carregava, o jovem pensou que seu companheiro era mais do que capaz de enfrentar tais criaturas.

Depois da pausa eles seguiram, e, no topo da elevação seguinte, encontraram o que procuravam.

Ao longe, colunas gêmeas se erguiam da areia como dentes imperfeitos, seus cumes terminando bruscamente como se partidos por alguma coisa não humana. Deckard Cain achou que seria bem possível se aquela fosse de fato a entrada para o repositório dos Vizjerei. Ele mal podia imaginar os horrores que poderiam ter visitado o local no passado à procura de sangue de feiticeiro. Os dois já estavam viajando havia dias, e tinham deixado as mulas na última cidade para cumprir a pé a última etapa da jornada. Mulas seriam pouco úteis nas dunas de areia incerta. O local que Cain e seu companheiro procuravam era bastante remoto; ele não tinha dúvidas de que as ruínas teriam permanecido escondidas por muitos mais anos se o jovem guerreiro que o acompanhava não tivesse lhe trazido os obscuros textos dos Zakarum, agora guardados na mochila de Deckard. Os Antigos Repositórios dos Vizjerei em Caldeum eram bem maiores e mais conhecidos entre os magos, mas aquele que procuravam, se existisse realmente, poderia ser ainda mais importante.

Tinha sido uma longa jornada. Após a derrota de Baal no Monte Arreat e a destruição da Pedra do Mundo, Deckard Cain não conseguira convencer seus companheiros de viagem de que a ameaça imediata a Santuário ainda não acabara. Bem longe disso, na verdade, se tudo o que ele lera e compreendera nos pergaminhos Horádricos fosse verdade. O próprio arcanjo Tyrael o avisara disso, antes de se perder. Cain sentira uma sutil mudança no mundo ecoando as profecias, uma alteração no delicado equilíbrio de séculos entre o Paraíso Celestial e o Inferno Ardente. A perda da Pedra do Mundo tinha sido devastadora, e deixara Santuário aberto e vulnerável.

Para piorar as coisas, Cain voltara a sonhar com a infância e as histórias da mãe, fazendo-o despertar encharcado de suor frio quase todas as noites. Ele lutava contra infindáveis exércitos das trevas sem nada para protegê-lo, ou sentava-se encolhido e alquebrado em uma jaula pendurada em um poste enquanto criaturas monstruosas o provocavam. Reviveu novamente eventos ainda piores: fantasmas do passado que ele acreditava enterrados para sempre.

O velho erudito não tinha sonhos assim desde a queda de Tristram. A culpa que sentia em relação aos acontecimentos o consumia; egoísta como ele era na época, tinha chegado tarde demais para deter a invasão demoníaca do próprio lar e para mudar o que acontecera no Monte Arreat.

Os companheiros de Cain insistiam em celebrar a vitória, em retornar aos entes queridos e retomar suas vidas esfaceladas, e ele não podia culpá-los por isso. No entanto, ninguém aguardava o seu retorno, e com Tristram destruída ele não tinha para onde ir. Assim, ele partiu em busca das peças que revelariam o padrão oculto dos eventos. Se a invasão fosse de fato iminente, ele precisaria de ajuda: os Horadrim tinham sido formados para combater o mal, mas estavam desaparecidos havia muito tempo. A voz da mãe ecoava em seus ouvidos, vinda do passado: Jered é do seu sangue, e você... você é o último de uma orgulhosa linhagem de heróis.

Akarat começou a descer a encosta de areia em direção às colunas, mas Cain o deteve pelo braço. O paladino vibrava, cheio da energia e impetuosidade próprias da juventude que nublavam os sentidos aguçados que o teriam aconselhado cautela. Mas Cain percebera, como um odor azedo trazido pelo vento.

O cheiro do perigo.

Akarat desembainhou a espada, ansiosos para atacar o que quer que estivesse esperando por ele.

— Aqui estamos expostos — afirmou o paladino. — É melhor irmos rápido. Eu te protejo dos manguais e das vespas. Além disso, pode ser até que não haja nada lá.

— É melhor observarmos um pouco mais. Os textos falam de um feitiço que esconde o repositório. Não era para estarmos vendo essas colunas. Algo enfraqueceu o feitiço.

Deckard não completou a linha de pensamento: Se houver artefatos valiosos escondidos aqui, pode haver também forças poderosas as guardando. Ele se ajoelhou na areia quente e vasculhou a mochila em busca de algo. O jovem que o acompanhava fazia Deckard se recordar de outro herói que conhecera há muitos anos, um velho amigo que descera até as catacumbas infernais tentando salvar Tristram. Ele pagara caro por seu excesso de confiança, bem como toda Santuário, e Cain não pudera salvá-lo.

Se eu estiver certo, será você quem precisará de proteção, pensou.

O ancião alcançou o objeto, parecido com uma luneta de lente âmbar, e o ergueu à luz. O sol caía no horizonte, tingindo o ar com uma coloração amarelada intensa. A escuridão chegaria em pouco mais de uma hora, e o melhor a fazer seria montar acampamento agora e explorar as ruínas ao amanhecer. Mas Akarat estava certo: ali eles estariam expostos, e nenhum deles queria enfrentar o que poderia estar à espera sob a areia quando a escuridão dominasse.

Deckard se levantou, tentando ignorar a dor nas costas e o latejar incômodo nos joelhos, lembranças constantes da sua velhice. Como isso acontecera? Parecia que apenas instantes atrás ele era um garoto brincando de pega-pega pelos campos, desviando dos montes de estrume de vaca escondidos pela grama e roubando ovos do galinheiro de Grosgrove. Ah, quão fugaz era a vida, escoando pelos dedos como areia, esvaindo-se antes que se pudesse segurá-la...

As incertezas de Cain retornaram. Ele passara a maior parte da vida no egoísmo e na negação, vivendo entre os livros e ignorando o próprio passado. Esperara cinquenta anos para abraçar seu destino, e no processo ajudara a destruir tudo o que mais amava. Será que ele poderia mesmo se considerar um Horadrim?

Ele não era um herói, apesar do que a mãe sempre lhe dissera. Pensar que tanta coisa repousava em seus velhos ombros frágeis o aterrorizava. Algo terrível se aproximava, algo que faria o ataque anterior parecer uma brincadeira de criança. Ninguém com quem ele falara da invasão demoníaca acreditara em suas palavras, exceto Akarat; todos pensaram que ele era um velho tolo e caduco, na melhor das hipóteses — e perigoso, na pior. As pessoas de Santuário continuaram com suas vidas e raramente pressentiam a intrusão dos demônios no mundo. A vida era difícil, porém normal.

Eles não tinham visto o que ele vira, nem sonhado o que ele sonhara. Ou pensariam de outra forma.

O paladino grunhiu. Ele embainhara a espada novamente, mas mudava o peso do corpo de um pé para o outro nervosamente. Em Hespéria, o jovem sempre se mostrara interessado pelas histórias de Cain, insistindo que ficassem acordados conversando até altas horas da noite; mas agora, em campo aberto e perto da batalha, ele queria ação. Fora batizado em homenagem ao fundador da Catedral Zakarum, e parecia um nome adequado para ele. Embora fosse jovem e teimoso, ele era um crente verdadeiro e fervoroso.

Cain sussurrou algumas palavras, um breve encantamento para ativar o poder do artefato, e o passou ao companheiro.

— Olhe para as ruínas com a lente. Rápido, antes que suma. O jovem paladino levou o aparato aos olhos, e o súbito arquejo de espanto bastou para Cain perceber que o artefato estava funcionando.

— Pela Luz... — murmurou o jovem. Ele abaixou as lentes, encarando as ruínas, e então as ergueu novamente. — Incrível. — Ele devolveu a luneta a Cain, com os olhos arregalados de espanto.

O ancião espiou através da luneta. A cor das lentes dava à cena uma coloração alaranjada, como se fogo queimasse na periferia da visão. Os restos de uma estrutura enorme e seu terreno circundante se espraiavam abaixo deles além do ponto em que as duas colunas marcavam a entrada. Mais colunas em variados estágios de decomposição se postavam em linhas gêmeas até chegar ao que já fora o portão frontal de um templo. As muralhas rachadas se erguiam até o ponto onde tinham sido demolidas por alguma forte explosão anos atrás. Enormes blocos de pedra, lascados e erodidos pela areia, jaziam semienterrados no lugar em que tinham caído.

Cain analisou cuidadosamente a cena e então baixou a luneta. Mais uma vez, a olho nu, apenas as duas colunas apareciam. O feitiço que protegera as ruínas durara séculos, mas agora enfraquecia. A pergunta era: por quê.

Não havia como deter Akarat, porém. O rapaz já estava alguns metros adiantado, descendo a encosta tão rapidamente quanto a armadura permitia. Olhou de relance para Cain, e o brilho cálido do sol roçou sua face empolgada uma última vez à medida que ele mergulhava nas sombras.

— Então vamos! — gritou ele. — Está bem na nossa frente! Você está esperando um convite formal?

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