Diablo® III

[Crônicas do Santuário] No cair da escuridão

Sinto os estertores da noite na sola das botas.

Abandonei o povoado com as pessoas se escondendo dentro de suas casas. Não, não apenas cruzando tramelas, mas selando janelas a marteladas, com um ímpeto de fogo desesperando seus corações. Eu os entendo.

Tive que escalar a paliçada para fora às escondidas, tarefa quase impossível debaixo dessa armadura de merda — a milícia barraria minha saída mesmo se eu ocultasse minhas armas. Sou um desconhecido. Sou o perigo.

Uivos cruzam a madrugada e gargalhadas ricocheteiam pelo ermo gélido. Eu posso senti-los rastejando, retornando. Um cemitério é o último refúgio que se deseja estar numa madrugada como esta. Não há paz nas lápides. A tranquilidade desse lugar cometeu suicídio.

Mesmo com o frio, estou suando de ansiedade. É a agonia da primeira noite, o mestre falou dela. Ninguém se acostuma, nem os anciões. Nem mesmo os anjos.

Ajeitando o capuz do manto, agacho e destampo o cantil preso no cinturão. Respiro e sorvo um pequeno gole. Mesmo a água pura, recém colhida num barril durante a saída furtiva da aldeia, tem gosto de mijo, de desespero. Sim, mesmo nós, os guardiões, sentimos medo. Apenas os tolos não sentem. Nossa coragem está na decisão de enfrentá-lo.

Esgueirando para fora do vilarejo pelos becos dos casebres, reconheci o pavor estampado nos olhos do próprio capitão da guarda. Ele viu inúmeras mortes, soldado desde jovem, tem intimidade com o terror. Esteve em praticamente todas as batalhas importantes dos últimos cinquenta anos e testemunhou a morte de famílias inteiras. E mesmo assim, teme.

Não fossem os doze anos e meio de treinamento e a iniciação nas catacumbas de Lut-Gholein, eu certamente estaria junto dos infelizes que se escondem como ratos por não fazer a menor ideia de como defender suas famílias e conterrâneos de uma ameaça que não é humana. Matar um semelhante fica fácil diante do cofronto com o desconhecido. A guerra apavora, mas enfrentar o oculto inexistente, enlouquece. Eu sou prova disso.

Conheço sinais que mortais deveriam ignorar. Sei proferir palavras que os anjos não têm o direito de dizer. As pessoas pensam que os inimigos das profundezas são os sagrados anjos. Na verdade, o Conselho Ângiris é apenas uma antítese dos Males Primordiais. São um espelho, uma régua.

A verdade é que os inimigos das profundezas somos nós.

O Príncipe Aidan não foi o bastante para que aprendêssemos que a batalha contra o Mal acontece em nossos corações. Não há feitiço, aparato ou santuário que possa evitar o confronto que brota no corpo dos homens. A batalha acontece na alma dos homens. Os anjos não foram agraciados com essa bênção-maldição. Anjos não tem alma e não sentem medo. São fadados a seguir uma natureza outorgada por outrém, endurecida pela obediência frígida. Não sentem as tentações mundanas. Sem conhecê-las, são incapazes de contê-las dentro de nós. Eles não são capazes de equlibrá-las. Para isso existimos nós.

Grunidos despertam meus ouvidos ecoando pelo campanário adiante, mas não há nada no horizonte. Colo a língua no céu da boca, realinho a coluna. Faço o sinal de Malthael, murmuro um verso antigo e minhas pupilas ignoram a escuridão. E nada.

Os ocultos marcham nas profundezas, além do véu, escalando valas no submundo sedentos pelo nosso medo. Matar é só uma forma de se apoderar dele. O sangue, tripas e carnificinas macabras que aprontam não passam de um fetiche. Um antigo hábito que os mais novos ainda cultuam por mimese. Você é o que fazem contigo e o que se deixa fazer consigo.

Os grunidos brotam ao redor e meu nariz é abatido pela podridão corrupta da carne conspurcada, tirada de seu descanso. Gemidos roucos, humanidade perdida. Órgãos regurgitando a morte que lhes foi concedida. Dedos, mãos e braços brotam como se fossem plantas apodrecidas crescendo ao contrário. Tentáculos do mal que espreita nas profundezas.

O mestre previu que aconteceria assim: primeiro os mortos se levantariam. O antinatural é a semente do medo.

Vejo o rosto de uma senhora enterrada na semana passada, vítima da febre carmesim. Suas pupilas esbranquecidas são o sinal para eu sacar a alabarda e iniciar a colheita.

Os portões do inferno reabriram. Os mortos se levantaram. De nada adianta se esconder.

[Crônicas de Santuário]
http://cobbi.com.br/santuario/
Editado por Cobbi#1811 em 22/05/2012 11:54 BRT
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muito bom, parabens, continue assim,cool.
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Obrigado pela leitura, Alyssoman! :)

Não deixe de clicar em "Curtir" lá em cima, ao lado do texto, ok? :)

Tem alguma classe, criatura, local ou elemento específico de Diablo 3 que você gostaria de ver numa fanfic?
Editado por Cobbi#1811 em 21/05/2012 05:26 BRT
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Carai, muito bom mesmo.
Da pra imaginar perfeitamente a cena.
Continue assim carinha que você tem muito futuro!!!
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Oi borr3g,

Valeu! Obrigado pela leitura e principalmente pelo comentário. Não deixe de clicar em "Curtir" lá em cima, ao lado do texto, ok? :)

Alguma sugestão de classe, criatura, local ou elemento específico de Diablo 3 pros próximos textos?

Ah! E por favor, peço pra me ajudarem na divulgação clicando em "Curtir" ao lado do texto e compartilhando no Facebook, Twitter ou pros amigos de jogo mesmo). :)
Editado por Cobbi#1811 em 21/05/2012 05:27 BRT
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Ta massa... e quando a tranquilidade comete suicidio, a porra fica seria msmo!
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Oi borr3g,
Alguma sugestão de classe, criatura, local ou elemento específico de Diablo 3 pros próximos textos?


Aeae

Cara eu curtiria muito um conte sobre a Arcanista.
Tenho já umas 50 horas com ela e não vejo momento em que jogarei com outra classe.
Gosto muito da história da classe.

E quando você joga com A arcanista juntamente com o templário, eu acho que ele curte ela hahushas sem zueira. Não sei se ele faz isso com todas as personagens mulheres, mas ele da uma boa xavecada. Ia ser muito legal um bom conto sobre a arcanista + templário se aventurando por ai rsrs.

Abraço!!
Vou apoiar
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Cobbi

Parabéns cara o texto ficou muito da hora, da para sentir o gosto de mijo da água.

Sobre isso:

22/05/2012 21:13Citação de borr3g
E quando você joga com A arcanista juntamente com o templário, eu acho que ele curte ela hahushas sem zueira. Não sei se ele faz isso com todas as personagens mulheres, mas ele da uma boa xavecada. Ia ser muito legal um bom conto sobre a arcanista + templário se aventurando por ai rsrs.


Essa parte ficou muito da hora no jogo, ele não curte todas, estou jogando com uma bárbara e ele é só respeito, quem deu umas cantadas nela foi o Vigarista, que levou uns cortes brutos como tinha que ser. Agora o templário se engraçou foi pela Sibila, que alias faz uns comentários engraçados com a minha bárbara.

Uma coisa que podia melhorar é acrecentar mais desses dialogos, depois de um tempo começa a ficar meio repetitivo.
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@Kleoric Nem me fala, xará, Nem me fala.... Aliás, fala sim! hehe Obrigado pela leitura e pelo comentário. Aguardo sua dica de elemento preferido no Diablo 3 (personagem, local, item, lore) para as próximas ficções ok?

@borr3g Nossa, que bacana! No Diablo 2, já havia interações diferenciadas entre os PJ's e PdM's, mas bem legal saber que eles complicaram essas relações ainda mais no D3. Sobre a sua dica, considere feito. Sua dica foi a primeira que recebi e é a primeira da lista. Te aviso por aqui quando publicar o texto ok? Aliás, qual o nome da sua Arcanista? tem algum item ou característioca específico sobre ela que vc gostaria de dividir comigo a título de sugestão? Quem sabe ela não faz uma ponta no meu próximo texto. :-)

@pluguinho Obrigado pela leitura cara e pelo comentário cara. Bom saber que as interações são customizadas. E você? Tem algo que gostaria de sugerir para a próxima ficção? Um personagem, local ou item? Algum elemento do jogo que vc goste?
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Só pra avisar que a minha ficção no universo do Diablo ganhou um espacinho semanal no blog Nós Geeks:

http://nosgeeks.com.br/ficcao-cronicas-do-santuario-no-cair-da-escuridao/

Não vou deixar de publicar as próximas por aqui também, mas conto com a leitura e com a divulgação de vocês, ok?
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@pluguinho Obrigado pela leitura cara e pelo comentário cara. Bom saber que as interações são customizadas. E você? Tem algo que gostaria de sugerir para a próxima ficção? Um personagem, local ou item? Algum elemento do jogo que vc goste?


Tenho sim, um personagem que gostei bastante foi o fazendeiro com sua mulher morta na fazendo do Campos da Miseria, achei as piadinhas bem engraçadas ao mesmo tempo macabras, não precisa ser um conto sobre ele em especifico, mas ficaria bacana alguma coisa que o envolvesse.
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@Cobbi

Conto espetacular. Sério mesmo. Adoro o ambiente sombrio e o suspense que santuário proporciona. Também sou um apreciador de fanfic, inclusive tenho uma em nome do meu mago de wow - http://us.battle.net/wow/pt/forum/topic/3581199356?page=1 - ;)

Estou muito instigado para criar uma de diablo e desenvolver paralelamente.

Continue escrevendo o/
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24/05/2012 11:32Citação de pluguinho
um personagem que gostei bastante foi o fazendeiro com sua mulher morta na fazendo do Campos da Miseria, achei as piadinhas bem engraçadas ao mesmo tempo macabras


Aquela subquest também me chocou, pluguinho. Emplorar esse tipo de profundeza humana é que dá o colorido dark que o universo de Diablo traz. Não se trata apenas de matar monstros e angariar tesouros, mas de enfrentar esse tipo de resultado que a corupção traz consigo.

Tópico separado aqui para a exploração. Já estou estudando os Campos da Miséria na Wiki para elaborar um trecho bacana com essa decadência de lá:

http://diablobrasil.wikispaces.com/Campos+de+Tristram

24/05/2012 13:35Citação de Kariel
Adoro o ambiente sombrio e o suspense que santuário proporciona. Também sou um apreciador de fanfic, inclusive tenho uma em nome do meu mago de wow


Olá Kariel. Ao lado de The Witcher,Diablo é minha ambientação favorita na dark fantasy:

http://nosgeeks.com.br/na-estante-o-ultimo-desejo-fantasia-medieval-desgraca-e-sexo-pra-bicho-papao-nenhum-botar-defeito/

Chequei sua noveleta de WoW e fiquei realmente impressionado. Adorei a forma como você ilustrou a história com screenshots do jogo. Muito bacana!

Vou continuar sim, essa semana tem mais por aqui!
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Gostei dos seus contos Cobbi... li o outro entitulado "Observadores" e também dei um Curtir lá.

Adorei a ambientação dark da série Diablo... e também fiz aquela subquest de Campos da Miséria... foi bem sarcástica!

Sucesso com os contos!
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curti com certeza
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Excelente história! Adorei escreve muito bem, parabéns!
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25/05/2012 09:33Citação de Cobbi
Chequei sua noveleta de WoW e fiquei realmente impressionado. Adorei a forma como você ilustrou a história com screenshots do jogo. Muito bacana!


Hehe, valeu pelo elogio. Mas estou bem aquém de sua habilidade.

Malz pelos séculos sem acessar e demora pra acessar. Sabe como é....o chamado da RL x)
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muito bom...o clima ficou perfeito! seria interessante uma historia com + de uma classe...um grupo de aventureiros q se encontraram ao acaso cada um seguindo uma mição q levava ao msm lugar...da uma material bom e pra muita coisa^^
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