Diablo® III

[Crônicas do Santuário] Observa-dores

"Foi o barulho da madeira cedendo. Eu sabia que eram portas sendo arrombadas na vizinhança, lares sendo invadidos pela morte. Era a lei do mais forte instaurando sítio.

Foi muita gente perdida, mas havia aproveitadores também. Tenho certeza. Vi muitos pajens bancando gatunos. Posso jurar que testemunhei milicianos virando saqueadores, estupradores e assassinos. Achei que fosse a guerra, mas sabíamos o que era. O velho tinha avisado. Foi a profecia.

Foi o choro desesperado dos vizinhos. Acredite, o choro das crianças irrita com seus agudos cortantes, mas é ínfimo diante do pranto de gente velha convulsionando em desespero. Esse choro, esse lamento, isso tira totalmente o prumo da gente. Foi isso. Foram os nervos.

Foi o ruído da carne rasgando. Foram os urros gorgolejando sangue e sandice. Eles gritavam por perdão, de raiva, pelo apocalipse, misericórdia, em desespero. Foram os gritos.

Na verdade, fui eu também.

Foi quando uma velha senhora de um casebre da rua debaixo implorou e arranhou tanto a porta que erguemos a barricada de mobília improvisada para olhar pela fresta. Pude jurar que ela já estava sem os olhos, lagrimas de lama, fedendo a urina. Ela escancarava a boca esmolando sua entrada. Acreditei que fosse me devorar antes de entender que suplicava abrigo.

Foi então que vi a turba de cadáveres se arrastando pela esquina, atrás dela.

Ela percebeu o terror nos meus olhos e tentou se acalmar. Disse que não queria me assustar, tentou provar que estava viva, consciente. Alegou que eram lentos e desajeitados, que eu era jovem e conseguiria ajudar. Rogou delicadamente que eu abrisse, garantiu que não estava ferida, que entraria rápido e ajudaria e repor o bloqueio. Tudo num só fôlego.

Eu neguei sem uma resposta sequer. Só cobri a fresta.

Ela continuou calada, talvez acreditando que eu fosse mesmo abrir, surpresa com a minha atitude. Talvez tivesse aceitado o que viria ou só estivesse paralisada, em pânico. Foi um silêncio breve que antecedeu uma tormenta de angústia. Um temporal de súplicas que dura até hoje dentro da minha memória.

Ouvimos tudo lá de dentro. Ela implorou até o fim, sem blasfemar, xingar ou praguejar. Não parou de pedir socorro nem enquanto foi devorada. Entretanto, carrego a lembrança até hoje. Como uma maldição, um castigo.

Primeiro foram os urros de agonia pela garganta sendo mastigada, depois o lacerar da carne, o estalar dos ossos desgrudando das juntas, o tiritar das mandíbulas se refestelando e gemendo engasgadas. Foi mais do que obsceno.

Meus filhos e minha esposa ouviram tudo, trancados dentro do porão. O mais velho estava ao meu lado e tapava os ouvidos, escondendo o rosto no meu abraço, aterrorizado. Estávamos a apenas uma porta de distância.

Demorou, mas eles partiram. Deixaram os intestinos dela escorrendo por baixo do entulho. Um fedor de culpa que ficou em mim. Sei que não teríamos tempo de refazer nossa proteção, mas não foi nisso que pensei aquele instante. Só obedeci um impulso, instinto talvez. Talvez até tivéssemos conseguido. Talvez não. Eu não sei. Não tentei. Sequer cogitei isso.

A culpa chega quase na hora, mas a vergonha só vem depois. Bem depois. E fica pra sempre"

— Trecho retirado do diário de um sobrevivente do massacre de Tristram
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Cobbi, MUITO BOM! Abraços.
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@kntswdza Ô Saulão! Abraço forte! Valeu pela leitura e pelo comentário!
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Como se estivessse mesmo em Tristam... muito bom!
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Muito bom
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excelente novamente! Obrigado pelo seu talento!
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show d+ kra!
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Mago Elfo Sangrento 90
11725
Há tempos que não visitava os fóruns de D3 x)

Bem, seus contos continuam impressionantes, Cobbi. Curtos e impactantes.

Uma joia e isca para os leitores casuais. =]
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