StarCraft® II

Um conto escrito por

James Waugh

Depois de envolver a mão com ataduras, Virgil pôs o dente no pescoço e foi até a porta da frente. Ele sabia que devia deixar o item para trás, que nenhum fazendeiro a caminho de Shiloh levaria um colar de dente de zergnídeo, mas ele não conseguia jogar aquilo fora. Certificou-se de que o dente estava sob o colarinho, para que ninguém o visse. Mas sabia que ele estava lá.

As ruas estavam cheias de cidadãos em pânico correndo sabe-se lá para onde. Um repórter de holonotícias, 20 metros acima do solo, transmitia os eventos que aconteciam pelo sistema. Imagens mostravam o ataque interplanetário do Enxame se espalhando de planeta a planeta. Virgil tentou não olhar; tentou manter o rosto fixo à frente, concentrado.

Ao dobrar a esquina, ele viu um grupo de homens e mulheres aglomerados ao redor de um escritório de recrutamento da Supremacia. Havia duas filas, uma marcada NOVOS RECRUTAS e a outra, REALISTAMENTO DE SOLDADOS. Havia uma guerra em andamento, e os soldados estavam se alistando para lutar.

Virgil apressou os passos, tentando não olhar para os homens e mulheres que estavam se realistando, cumprindo seu dever.

Ele chegou à estação de traslado e sentou em um dos bancos, esperando o próximo transporte para o Estaleiro Sideral Kurtz. O painel dizia que o ônibus estava chegando. Era questão de minutos.

Um dos monitores na parede oposta mostrava o noticiário da UNN. Ele viu o Imperador Mengsk em um pódio perto do General Warfield, um comandante lendário. Uma faixa de texto com atualizações em tempo real deslizava pela parte inferior da tela, e a contagem de corpos aumentava.

Sentado ali em silêncio, Virgil tinha certeza de que conseguia ouvir o zumbido. Podia jurar que ouvira o guincho agudo de um zergnídeo e o pipocar de tiros se mesclando ao som de explosões. Fechou os olhos e viu o movimento de centenas de zergnídeos avançando em sua direção, como os que tinham matado Birch, Dave e Irmscher, além de tantos outros irmãos de armas caídos. Estava tudo em sua mente. Sempre estaria. Não havia escapatória. Abrindo os olhos, ele percebeu que era verdade.

Uma guinchada alta soou na esquina e o transporte chegou, flutuando um metro acima do chão. A onda de calor dos motores atingiu o rosto de Virgil. Ele olhou para cima. O motorista abriu a porta para que ele entrasse. Virgil apenas ficou sentado, ouvindo o ronronar do motor do ônibus. Lembrava-o do barulho que um Abutre fazia ao partir para a zona de combate.

— Ei, camarada, cê vai ficar aí o dia todo ou vai entrar?

Virgil encarou o homem por um longo momento. Por fim, levantou-se. — Não, senhor... desculpe. Eu só estava... descansando as pernas.

— Ah, vai pro cacete, seu zé ruela! Vai descansar as pernas em outro lugar, não numa estação de embarque... Mané! — O motorista acelerou e partiu.

Virgil voltou descendo o quarteirão.

Ao se aproximar do escritório de recrutamento da Supremacia, parou perto de uma lata de lixo. Virgil puxou a identidade forjada do bolso. A chave para uma vida diferente, longe de zergnídeos e do combate. Por um momento, imagens de Rufi e dele juntos passaram por sua mente. Eram fazendeiros em Shiloh, tinham filhos lindos que corriam por toda parte, sorrindo; uma risada musical feito a da mãe. Projeções de uma vida que podia ter sido, uma vida estranha a um sargento fuzileiro quando havia uma guerra acontecendo.

Ele jogou a identidade falsa na lata de lixo e, metendo a mão sob o colarinho, puxou o dente de zergnídeo e o deixou à mostra por cima da camisa, exibindo-o altivamente para quem quisesse ver: uma insígnia de honra, sua medalha favorita.

Momentos depois, Virgil estava na fila, no edifício de recrutamento da Supremacia com o resto dos fuzileiros mais velhos que tinham encarado os zergs, homens que entendiam o que ele tinha visto, pelo que ele havia passado e como ele jamais seria igual àqueles que não tinham passado pelas mesmas experiências.

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