StarCraft® II

Novo em StarCraft II? Experimente grátis já
A página que você está vendo ainda não está disponível no site novo de StarCraft II, mas pode ser acessada no site clássico abaixo!
Um conto escrito por

Michael O'Reilly and Robert Brooks

Todos olhavam para a vítima que o brutamontes escolhera: o garoto com as marcas. O homenzarrão ainda sorria daquela maneira reptiliana; estava louco de vontade de esmurrar, mas queria brincar um pouco antes.

— Cê é de onde, putinha?

— Num sei. — Nada de medo. Nem emoção alguma.

— "Num sei" — imitou o grandalhão, provocando gargalhadas cruéis. — E teu nome? Tu é tão burro que não sabe nem o próprio nome?

— Lisca.

Gabriel sentiu um comichão nos braços.

Os detentos precisam pagar o preço da própria sobrevivência.
— Preceito Nº 3 da Casa de Gelo

— Ah, é? Cê é tipo uma mutalisca? Olha só pra ele. Acho que ele precisa dum nome novo. Que tal Putalisca? Seu rato... Ei, que...

Gabriel não viu o que o grandalhão viu, mas os outros sim, e ninguém estava rindo. Foi então que o garoto fez sua jogada. Deu um soco forte no estômago do brutamontes, que se inclinou para frente. Uma série cruel de chutes no flanco derrubou o homem, que ficou estatelado, gemendo fracamente.

O garoto olhou em volta, sorrindo. Era um sorriso hediondo, com dentes afilados e a gengiva descamada. Um sorriso de monstro.

— Só "Lisca".

* * *

O ciclo de repouso não durou muito. Um alarme soou em seus ouvidos até todo mundo sair das celas.

Eles foram conduzidos até a cantina, onde uma máquina cuspiu a primeira refeição: uma horrenda pasta de nutrientes junto com sabe-se lá o que mais. Não tinha gosto de nada, não satisfazia, mas foi tudo o que receberam. Um detento maior tomou a tigela de Gabriel quando ele mal havia dado duas colheradas. Gabriel decidiu não criar caso.

Ninguém chegou perto de Lisca enquanto ele comia; a gororoba escorria dos vãos entre seus dentes.

A adjutora os convidou a voltarem ao saguão, que fora convertido em uma pista de corrida — imaginada por um sádico. Os detentos foram instruídos a correr, saltar, dobrar-se, esticar-se, de novo e de novo. Algumas torres de artilharia os mantinham em movimento.

O primeiro dia terminou, deixando a todos estendidos no chão, exaustos, abatidos, ansiando por descanso.

Ia piorar.

Os dias tornaram-se um borrão. Não havia um ciclo coerente. A hora de dormir vinha quando a adjutora desejava. A comida nunca mudava, mas o treinamento, sim.

Não era que as máquinas controlassem a Casa de Gelo. A Casa de Gelo era uma máquina. Cada sala continha algum tipo de robô, dos quais muitos eram devotados a apenas um aspecto do treinamento. Os robôs assumiam a forma de alvos móveis, parceiros de luta para técnicas de combate, obstáculos. Não havia moleza nem leniência; nada era facilitado para os detentos.

Os piores dias eram nas jaulas de simulação. Cada detento era levado a uma estrutura em formato de caixão formada por bulbos, fios e presilhas, e a adjutora os convidava a deitar lá no meio. Não era possível recusar o convite.

O que se seguia era simplesmente um pesadelo. Luzes e sons eram enviados diretamente ao cérebro do detento, para causar emoções. Gabriel ficava deitado em um dos dispositivos e seus sentimentos eram dedilhados feito as cordas de um instrumento. Ele sentia júbilo extático e desespero anestesiante, pavor que o fazia querer morrer para não ter que suportar nem mais um segundo.

Cada sessão terminava da mesma maneira para todos os detentos: eles rastejavam e caiam no chão chorando e tremendo. Até o Lisca reagiu ao tratamento, embora seus olhos demonstrassem antes avidez que ruína.

Depois de três semanas, um homem não acordou. A adjutora ordenou aos detentos que esvaziassem as celas. Gabriel teve um vislumbre de um frangalho trêmulo amarfanhado em um beliche, com sangue escorrendo da boca. Quando retornaram, o homem tinha sumido.

* * *

— Tem alguma coisa estranha com você.

Gabriel, sentado em um banco, olhou para o alto. O Lisca estava falando com ele. O maluco não tinha falado com ninguém desde sua chegada. — Como assim?

— Cê não tá com tanto medo quanto era pra estar. — O Lisca sorriu. Seus dentes afilados não lhe emprestavam uma aparência alegre. — Os outros roubam sua comida. Te expulsam do beliche. Fazem você esperar pra usar a latrina. Você tá lá embaixo. Devia ter mais medo.

— Obrigado... acho — disse Gabriel, e engoliu outra colherada da gororoba sem gosto. Ninguém mais se aproximara da mesa desde que o Lisca sentara-se ali. Talvez Gabriel conseguisse comer uma tigela toda naquele dia.

Os detentos precisam se proteger o tempo todo. Considere cada momento de calmaria um campo de batalha e cada campo de batalha um momento de calmaria.
— Preceito Nº 4 da Casa de Gelo

— Não foi um elogio — disse o Lisca. Não havia malícia em suas palavras, mas uma curiosidade estranha. — Cê age como um fraco. Parece fraco. Mas não tá com medo. Então cê não é fraco de verdade. Tá se escondendo.

Gabriel suspeitava que o Lisca não aceitaria um não. — Acho que as coisas aqui ainda vão piorar muito antes de melhorar — disse. — Talvez eu leve vantagem se me subestimarem.

O Lisca não pareceu ouvi-lo. Ele encarava a marca roxa no braço de Gabriel. — Não precisava ter ganhado isso aí.

Era bem verdade. A pista estava cheia de robôs disparando balas de borracha. As máquinas se moviam lentamente, não podiam se esquivar nem abaixar e mal conseguiam acompanhar um alvo móvel. Devia ser a coisa mais fácil do mundo esquivar-se delas.

Então um robô projetou um holograma de uma criança. Não era sólido, nem sequer era bem renderizado, mas aquilo o assustou e o fez hesitar. O robô o puniu com um tiro no braço.

— Não pude evitar — disse, mas o Lisca deu aquele sorriso tétrico.

— Ah, você pode. Eu enxergo. Acho que eles não. — Ele apontou para o teto.

Gabriel riu. — Lisca, já te disseram que você é meio esquisito?

O Lisca deu de ombros. — Sou mesmo.

* * *