Prévia: Sombras da Horda

Prévia: Sombras da Horda

Estamos felizes em compartilhar uma prévia de Sombras da Horda.

Assassinos do Chefe Guerreiro Garrosh atacam Vol'jin, deixando-o à beira da morte. Mas o destino sorri para o líder Lançanegra quando o renomado mestre cervejeiro Chen Malte do Trovão o leva para a segurança de um monastério em uma montanha isolada. Ali, Vol'jin luta contra o velho ódio latente entre a Aliança e a Horda, enquanto luta para se recuperar ao lado de um misterioso soldado humano.


No entanto, esse é apenas o começo das preocupações de Vol'Jin. Logo ele se vê envolvido em uma invasão de Pandaria iniciada pelos Zandalari, trolls venerados em busca dos sonhos de dominação e poder. Esta antiga tribo oferece a Vol'jin a chance de aproveitar a glória, direito de todos os trolls... fazendo uma oferta ainda mais tentadora após a traição descarada de Garrosh.


Em meio a esses acontecimentos problemáticos, Vol'jin é abalado por visões intensas que retratam a história grandiosa de sua raça. Conforme ele questiona sua lealdade, ele sabe que deve fazer uma escolha sobre seu próprio destino, que poderia salvar seu povo ou condená-lo a definhar sob o calcanhar de Garrosh.

Autor: Michael Stackpole
Data de Lançamento: 19 de julho de 2013

Confira um trecho do livro abaixo:

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Vol’jin, caçador sombrio da tribo Lançanegra, não podia sequer imaginar um pesadelo pior. Ele não podia se mover. Nem um músculo, nem mesmo abrir os olhos. Seus membros estavam rígidos. O que quer que os prendia, era pesado como corda de navio, forte como uma corrente de aço. Respirar doía, e ele não conseguia respirar profundamente. Ele só não desistia porque a dor e o medo de que pudesse não se mover mais o faziam continuar. Enquanto temesse não respirar outra vez, ele sabia que estava vivo.


- Mas tô mesmo?
- Por enquanto, filho, por enquanto.


Vol’jin reconheceu a voz do pai num instante, sabendo que não era com os ouvidos que a ouvia. Ele tentou virar a cabeça para o lado de onde as palavras vinham. Não conseguiu, mas sua consciência se virou.
Seu pai, Sen’jin, acompanhava-o, mas não caminhando. Ambos se moviam, mas Vol’jin não sabia como, ou para onde. Se não tô morto, então devo tá vivo.


Uma voz forte e grave veio do outro lado, à sua esquerda. Isso ainda tá pra ser decidido, Vol’jin.
A consciência do troll fez força para olhar na direção da voz. Uma figura medonha de aspecto troll, com um rosto que evocava a aparência de uma máscara rush’kah, estudava-o com olhos inclementes. Bwonsamdi, o loa que servia aos trolls como guardião dos mortos, sacudiu lentamente a cabeça.


O que vou fazer contigo, Vol’jin? Vocês Lançanegra não tão oferecendo os sacrifícios que deveriam, e ainda assim ajudei vocês a chutar a Zalazane da tua casa. Agora cê fica se prendendo à vida em vez de vir logo comigo. Eu te tratei mal? Não sou digno da tua adoração?


Vol’jin quis desesperadamente cerrar as mãos em punhos, mas elas continuavam impotentes, alquebradas, dependurando-se de braços mortos. Ainda tenho umas paradas pra fazer.


O loa gargalhou, e o som ardeu na alma de Vol’jin. Ouve essa do teu filho, Sen’jin. Eu dizendo pra ele que a hora chegou, e ele me diz que as necessidades dele são mais importantes. Como foi que cê conseguiu criar um filho tão teimoso?


Como uma névoa fresca e calmante, a risada de Sen’jin acalentou a carne maltratada de Vol’jin. Eu ensinei que os loa respeitam a força. Primeiro cê reclama que ele não oferece sacrifícios o bastante. Depois reclama que ele quer mais tempo pra oferecer sacrifícios maiores. Eu sou tão chato assim, a ponto de cê querer meu filho pra te divertir?


Cê acha mesmo que ele quer continuar vivo pra me servir, Sen’jin? 
Vol’jin sentiu que o pai sorria. Meu filho tem várias razões, Bwonsamdi, mas que uma delas seja te servir já devia ser o bastante.


Cê quer me ensinar a fazer meu trabalho, Sen’jin?
Tô só te lembrando, grande espírito, de como cê ensinou a gente a te servir tempos atrás.
Outras risadas distantes ecoaram pelo corpo de Vol’jin. Outros loa.


O tom agudo e cortante de uma e o ribombo grave de outra sugeriam que Hir’eek e Shirvallah divertiam-se com a conversa. Vol’jin achou graça, mas sabia que pagaria pela ousadia.


Um rugido ecoou da garganta de Bwonsamdi. Se fosse mais fácil te convencer a desistir, Vol’jin, eu o rejeitaria. Cê não seria meu filho de verdade.


Mas é melhor ficar esperto, caçador sombrio: a batalha que te espera vai ser mais terrível que qualquer uma que cê já tenha lutado. Cê vai desejar ter se rendido, pois o peso da vitória vai te esmagar e transformar em pó.


Num piscar de olhos, a presença de Bwonsamdi se fora. Vol’jin procurou o espírito do pai. Ele estava próximo, mas esvanecia. Vou te perder de novo, pai?


Não tem jeito de cê me perder, Vol’jin, eu sou parte de ti. Enquanto cê for leal a si mesmo, eu vou estar do teu lado. Vol’jin sentiu o sorriso do pai outra vez. E um pai como eu não abandonaria assim um filho que dá tanto orgulho.


As palavras de Sen’jin, mesmo exigindo reflexão, ofereciam conforto suficiente para que Vol’jin não temesse mais pela vida. Ele viveria. E continuaria a orgulhar o pai.


Ele marcharia direto para o terrível destino que Bwonsamdi previra e desafiaria as predições. Com essa convicção firme em sua mente, sua respiração se acalmou, a dor cedeu e Vol’jin afundou num poço negro
de paz. Quando voltou a si, Vol’jin sentia-se recomposto e bem; as pernas estavam firmes e as costas, fortes. O sol brilhava inclemente acima do pátio, onde milhares de trolls o rodeavam. Todos eram uma cabeça mais altos que ele, mas nenhum parecia se importar. Na verdade, os trolls pareciam nem sequer notá-lo.


Outro sonho. Uma visão.


Mesmo não reconhecendo imediatamente o lugar, ele sentia que já estivera ali antes. Quer dizer, depois, afinal a cidade ainda não se rendera à invasão da floresta que a cercava. Os entalhes nas muralhas
estavam novos e bem definidos. Os arcos ainda se sustentavam de pé. A pavimentação estava intacta. E a pirâmide de degraus, impondo-se majestosa diante de todos, não fora ainda humilhada pelas investidas
do tempo.


Vol’jin estava postado em meio a um grupo de Zandalari, membros da tribo de trolls da qual todas as outras tribos descendiam. Como passar dos anos, eles se tornaram mais altos e exaltados que a maioria.
Na visão, pareciam uma casta de sacerdotes, poderosos e educados, aptos para a liderança.
Mas no tempo de Vol’jin, a habilidade que tinham de liderar havia se degradado. É porque os sonhos deles tão todos presos aqui.


Este era o Império Zandalar no auge de seu poder. Outrora, esta tribo dominara Azeroth, mas seu próprio poder havia sido a causa de sua queda. A ganância e a avareza causaram intrigas. As facções se dividiram.
Novos impérios se ergueram, como o Gurubashi, responsável pelo exílio dos trolls Lançanegra de Vol’jin — e que, no fim, também acabou caindo.


Os Zandalari ansiavam pelo retorno ao tempo em que estavam no auge. Um tempo em que os trolls eram uma nobre raça. Unidos, eles alcançaram alturas que tipos como Garrosh nem podiam imaginar que
existiam.


Uma vibração de magia antiga e poderosa atravessou Vol’jin, explicando por que ele assistia aos Zandalari. A magia dos titãs devorara até mesmo a primeira tribo. Era mais poderosa que eles. Assim como os Zandalari estavam acima de coisas que rastejavam pelo chão da floresta, os titãs estavam acima deles — e também sua magia.


Vol’jin cruzou a multidão. Os rostos dos Zandalari brilhavam com sorrisos medonhos — do tipo que surgia quando as trompas tocavam e os tambores trovejavam, convocando-os para a guerra. Os trolls foram feitos para rasgar e matar — Azeroth era seu mundo e tudo nele lhes pertencia. Mesmo que Vol’jin discordasse de outros trolls sobre quem eram seus inimigos, sua ferocidade em batalha não ficava por baixo, e a maneira como os Lançanegra venceram seus inimigos e libertaram as Ilhas do Eco enchiam-no de orgulho.


Bwonsamdi quer tirar sarro da minha cara com essa visão. Os Zandalari sonhavam com um império, e Vol’jin desejava apenas o melhor para seu povo. Ele sabia a diferença. Era fácil planejar um massacre,
mas muito difícil criar um futuro. Para um loa que preferia seus sacrifícios sangrentos, dilacerados pela batalha, a visão de Vol’jin pouco interessava.


Vol’jin escalou a pirâmide. Enquanto subia, as coisas se tornavam mais substanciais. Antes imerso em um mundo de silêncio, ele agora sentia os tambores ecoando nos blocos de pedra, fazendo-os vibrar. A
brisa acariciava seu pelo claro e despenteava-lhe o cabelo, trazendo um perfume de flores com ela — um aroma pouco mais agudo que o de sangue derramado.


Às suas costas, os tambores continuavam a trovejar. Vozes chegavam aos seus ouvidos. Gritos de baixo. Ordens de cima. Ele se negava a recuar, mas parou de subir. Era como se o tempo fosse a água de um
lago, de onde lentamente emergia. Se chegasse ao topo, ele estaria lá com os Zandalari, sentindo o que eles sentiram. Conheceria seu orgulho.


Respiraria seus sonhos.
Ele se tornaria um deles.
Ele não se daria ao luxo.


Os sonhos que tinha para os Lançanegra talvez não comovessem Bwonsamdi, mas para a tribo eram um sopro de vida. A Azeroth que os Zandalari conheceram fora drástica e irrevogavelmente transformada.
Portais foram abertos. Novos povos vieram. Terras foram estilhaçadas, raças corrompidas e um imenso poder foi liberado, maior do que os Zandalari podiam imaginar. Diferentes raças — elfos, humanos, trolls,
orcs e até mesmo os goblins, além de outras — uniram forças para derrotar Asa da Morte, criando uma estrutura de poder que revoltava e ofendia os Zandalari. Os Zandalari ansiavam por restabelecer sua força
diante de um mundo que se transformara de tal maneira que seus sonhos jamais poderiam se realizar.


Vol’jin interrompeu o próprio pensamento. “Nunca” é uma palavra forte.


Num piscar de olhos, a visão mudou. Ele estava de pé no ápice da pirâmide, olhando nos olhos dos Lançanegra. Seus Lançanegra. Eles confiavam em seu conhecimento do mundo. Se ele dissesse que era possível recuperar a glória que outrora lhes pertencera, eles o seguiriam. Se ordenasse que tomassem a Selva do Espinhaço ou Durotar, eles o fariam. Os Lançanegra sairiam pelas ilhas e subjugariam todos em seu caminho simplesmente para satisfazer um desejo seu. Ele podia fazê-lo. Ele sabia como. Thrall respeitava suas opiniões e confiava em seu julgamento para assuntos militares. Os meses de recuperação
poderiam ser usados para planejar campanhas e organizar estratégias. Um ou dois anos após seu retorno de Pandária — caso ainda estivesse lá —, o estandarte Lançanegra estaria pintado com sangue e
instilaria ainda mais medo.


E o que eu ganharia com isso?
Eu curtiria pra valer.


Vol’jin girou. Bwonsamdi estava de pé junto dele, uma figura titânica com as orelhas apontadas para frente, prontas para receber os gritos de baixo. Cê ganharia paz, Vol’jin, por fazer o que a tua natureza
troll manda.


É isso que a gente é pra ti?
Os loa não pedem nada mais que isso. O que mais cê poderia querer?
Vol’jin procurava uma resposta para a pergunta. A busca fazia com que fitasse o vazio. A escuridão se estendeu e o engoliu, deixando-o sem resposta e, certamente, sem paz.


Vol’jin finalmente despertou. Seus olhos se abriram, por isso ele soube que não era um sonho. Uma luz fraca os banhava, filtrada pela gaze. Ele queria ver, mas para isso teria que remover as bandagens. Isso, por sua vez, exigiria que erguesse a mão. O que descobriu ser impossível. Sua conexão com o corpo era tão tênue que ele não sabia se estava amarrado ou se tivera as mãos arrancadas.


Encontrar-se vivo deu-lhe ímpeto para se lembrar de como fora ferido. Até que tivesse certeza de que viveria, o esforço lhe pareceria ser em vão.


Sem ser convidado e em aberta afronta aos desejos de Garrosh Grito Infernal, Vol’jin decidiu viajar para a nova terra, Pandária, para ver que tipo de tarefas o Chefe Guerreiro dera à Horda. Ele sabia dos pandarens porque conhecia Chen Malte do Trovão, e desejava conhecer sua terra antes que a guerra entre a Horda e a Aliança a destruíssem. Sua vinda não tinha por objetivo impedir Garrosh, mas certa vez Vol’jin ameaçara vará-lo com uma flecha, e trazia consigo um arco. Por precaução. Garrosh, apesar do temperamento terrível, ofereceu a Vol’jin a chance de contribuir com os esforços da Horda. O troll aceitou, mais para refrear as ambições do Chefe Guerreiro do que para servir à Horda.Na companhia de um dos orcs de confiança de Garrosh, Rak’gor Navalha Sangrenta, e de um grupo de aventureiros destacados para a missão no coração de Pandária, Vol’jin partiu.
A jornada foi um alento para o caçador sombrio, que comparava aquela terra às que já visitara.

Ele vira montanhas arredondadas assoladas e vencidas, mas em Pandária, elas pareciam apenas suaves. Ou montanhas furiosas e irregulares, que aqui, apesar de não menos afiadas, pareciam apenas ansiosas. Suas selvas e bosques abundavam com vida, mas não pareciam esconder ameaças como, por exemplo, a Selva do Espinhaço. Havia ruínas, mas apenas por que foram abandonadas, não devastadas e enterradas. Enquanto o resto do mundo era açoitado pelo ódio e pela violência, Pandária escapara ao chicote.


Por enquanto.


Mais rápido do que Vol’jin gostaria, a tropa chegou ao destino. À frente, Rak’gor e dois ajudantes reconheciam o território montados em mantícoras; quando o grupo chegou à boca de uma caverna, Vol’jin não viu sinal deles. Lagartos imensos, vagamente humanoides, guardavam a entrada. Os aventureiros os eliminaram e se prepararam para mergulhar nas profundezas sombrias.


Morcegos negros irromperam guinchando dos recessos nas paredes.


Vol’jin ouvia os gritos das criaturas fracamente — e duvidava que os outros ouvissem algo além do bater das asas. Um dos loa, Hir’eek, usava a forma de um morcego. Será que os deuses tão avisando que não vem coisa boa por aí?


Os loa não responderam e o Lançanegra avançou. Uma sensação gélida de corrupção ficava mais forte conforme progrediam. Vol’jin parou, acocorou-se e removeu uma das luvas. Depois de encher a mão com um punhado de terra úmida, levou-a até o nariz. O perfume suave e adocicado da vegetação apodrecendo misturava-se ao fedor pungente de guano, mas havia algo mais. Saurok, com certeza, mas havia mais.


Aproximando ainda mais o punho do nariz, o troll cerrou os olhos.


Depois, usou o polegar para peneirar a terra entre os dedos. Por fim, abriu novamente a mão e a estendeu. Fina como uma teia de aranha, evolando-se instável como a fumaça de uma vela soprada, magia residual
roçou a palma de sua mão. E a encheu de urticária.


Esse lugar é barra pesada.


Vol’jin abriu novamente os olhos e caminhou pela antiga passagem rumo às entranhas da caverna. Quando chegaram às bifurcações, os orcs examinaram as duas passagens. Com a mão direita nua e espalmada, o troll não precisou agitá-la no ar para encontrar pistas. O que começara como uma teia de aranha transformara-se em fiapo, depois em linha e agora ameaçava tornar-se barbante e, depois, corda. Cada pedaço surgia com minúsculos espinhos. A dor não aumentava, mas o emaranhado em sua mão crescia.


Quando o fio de magia tornou-se espesso como uma corda de navio, eles encontraram uma imensa câmara vigiada pelos maiores sauroks que já haviam visto. Um lago subterrâneo fumegava, ocupando quase todo o coração do salão. Centenas de ovos de sauroks — talvez milhares — espalhavam-se pelo chão, aquecidos enquanto amadureciam.


Vol’jin ergueu uma das mãos, sinalizando para que os outros parassem.
Um viveiro no coração da magia.


Antes que Vol’jin tivesse a chance de compreender totalmente a dimensão de sua descoberta, os sauroks os descobriram e atacaram. O troll e seus aliados lutaram bravamente. Os sauroks atacavam com fúria, e ainda que o grupo de Vol’jin tivesse prevalecido, todos estavam feridos e ensanguentados. Enquanto os companheiros cuidavam de seus ferimentos, Vol’jin partiu para investigar.


Silenciosamente ele vadeou pelo lago e estendeu os braços. De olhos fechados, o troll girou lentamente. Como cipós na selva, os cabos mágicos invisíveis agarraram-se aos seus braços e enlaçaram seu corpo.
Envolto, sentindo seu toque ardente, Vol’jin compreendeu o lugar como só um caçador sombrio poderia.
Espíritos gritavam uma agonia de eras. A essência dos sauroks golpeou seu corpo, deslizando sobre seu abdome como a víbora coleara sobre o chão de pedra fria tempos atrás. A serpente era verdadeira para consigo em natureza e espírito.


Magia a atingira. Magia medonha. Magia que era um vulcão, comparada à brasa que a maioria dos magos dominava. Ela impregnava a serpente, atravessando seu espírito dourado com mil espinhos negros.
Os espinhos então separaram isso e aquilo, cima e baixo, dentro e fora, até mesmo passado e futuro, verdade e mentira. Com o olho da mente, Vol’jin assistia enquanto os espinhos repuxavam cada vez mais, estirando o ouro feito cordas de arco retesadas. De uma só vez, todos os espinhos se deslocaram novamente para o centro, arrastando as linhas douradas com eles, enovelando-as num emaranhado arcano. Os fios se retorciam e atavam. Alguns estalavam. Outros se dividiam, dando origem a novas pontas. Durante todo o processo, a víbora guinchava. O que ela antes fora, tornara-se outra criatura; enlouquecida pela experiência, mas maleável e complacente nas mãos de seus criadores.


Ela não estava sozinha.


O nome saurok surgiu para ele — um nome que não existia antes do primeiro ato selvagem de criação. Nomes têm poder, e aquele definia as novas criaturas. Também definia seus mestres, e puxava de lado o véu que ocultava a magia usada. Os mogus criaram os sauroks. Os mogus que Vol’jin conhecia como sombras evanescentes em lendas obscuras.


Que já estavam mortos.


Sua magia, contudo, não estava morta. Uma magia capaz de recriar algo tão completamente vinha da aurora do tempo, do início de tudo. Os titãs, moldadores de Azeroth, usaram-na em seus próprios atos de criação. O poder incrível de tal feitiçaria não podia ser compreendido por uma mente sã, muito menos dominado; ainda assim, sonhar com ela alimentava os mais insanos voos de poder.


Revivendo a criação dos sauroks, Vol’jin alcançara uma verdade fundamental da magia. Era possível ver um caminho, ainda que num mero vislumbre, para poder estudá-la. A mesma magia que originara os sauroks poderia desfazer os murlocs, assassinos de seu pai, ou fazer com que os humanos voltassem a ser vraikalen, de quem obviamente derivavam.


Fazer algo assim seria dar a um poder tão grande um uso digno, e justificaria as décadas de estudo que seu domínio requereria.O caçador sombrio voltou a si. Alimentando tais pensamentos, ele se tornava presa da mesma armadilha que sem dúvida acometera os mogus. A magia imortal corrompia os mortais. Não havia escapatória.


A corrupção destruiria quem a controlasse. E provavelmente seu povo.
Vol’jin reabrira os olhos, e viu Rak’gor de pé junto dos sobreviventes do grupo.


— Demorou pra cê aparecer. O Chefe Guerreiro descobriu que existe uma ligação entre os mogus e essas criaturas.
— Os mogus são os criadores. Já vi que esses mogus se amarram numa magia negra. — A pele de Vol’jin se arrepiou quando orc caminhou para frente. — É a magia mais tenebrosa que existe.


O orc respondeu com um sorriso rápido, feroz:

— É isso. O poder de dar forma à carne, de fabricar guerreiros. É isso o que o Chefe Guerreiro quer.
Vol’jin sentiu o estômago dar um nó.
— Garrosh quer brincar de deus? Isso não tem nada a ver com a Horda!
— Ele sabia que você não aprovaria.


O orc atacou violentamente, sem misericórdia. A adaga atingiu o pescoço de Vol’jin, que cambaleou. À sua volta, os companheiros salta-ram para a batalha. Rak’gor e seus aliados lutavam com um desprendimento inclemente, indiferentes à própria segurança, morrendo em seus esforços guerreiros. Talvez Garrosh os tivesse convencido de que com a nova magia poderia trazê-los de volta, torná-los melhores.
Vol’jin apoiou-se num dos joelhos e conteve os companheiros.


Pressionando a garganta para fechar a ferida ele disse:
— Garrosh se trai. Ele tem que acreditar que a gente morreu. É nossa única chance de deter ele. Vão. Vigiem ele. Encontrem outros que nem eu. Façam um juramento de sangue. Pela Horda. Estejam prontos
quando eu voltar.


Assistindo aos companheiros partirem, ele realmente pensava que lhes dissera a verdade. Mas quando tentou ficar de pé, a agonia negra atravessou seu corpo. Garrosh planejara tudo. A lâmina de Rak’gor estava coberta com algum tipo de veneno. Seus ferimentos não se curavam como deveriam, e sentia as forças abandonarem seu corpo. E lutava, resistindo à névoa que cobria sua mente.


Talvez ele tivesse conseguido se mais sauroks não o tivessem encontrado.
Ele mal se lembrava de tê-los enfrentado, só se recordava de lâminas cortando a escuridão. Dor de feridas que se recusavam a fechar.


O frio tocando seus membros. Ele corria cegamente, chocando-se contra as paredes, cambaleando pelas passagens, esforçando-se para ficar de pé e continuar se movendo.
Como saíra da caverna e como chegara onde estava agora, ele não sabia dizer. Certamente não era o cheiro de uma caverna. Ele farejou algo assustadoramente familiar, oculto sob cataplasmas e unguentos.


Não era prudente supor que estava entre amigos. Os cuidados que recebia pareciam sugerir isso. Ou seus inimigos tratavam-no bem para fazê-lo de refém e exigir pagamento para devolvê-lo à Horda.
Eles vão ficar desapontados com a oferta de Garrosh.


O pensamento quase o fez rir, mas ele não conseguia. Os músculos do abdome se enrijeceram, mas em seguida se soltaram, fatigados e doloridos. Ainda assim, a reação involuntária do corpo era um alívio.
Risadas eram para os vivos, não para os mortos.


Como lembranças.


Não estar morrendo era o bastante por ora. Vol’jin respirou o mais fundo que pôde e expirou lentamente. Antes de soltar todo o ar, já estava dormindo.

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