Universo Expandido

Sylvana Correventos:Fim da Noite

por Dave Kosak

COROA DE GELO

Sylvana Correventos flutua num mar de alívio, e todas as sensações físicas são substituídas por emoção pura. Ela consegue tocar o êxtase, ver o júbilo, ouvir a paz. Aquilo era a vida após a morte, seu destino. O mar eterno onde Sylvana se viu após perecer defendendo Luaprata. Ela pertence àquele lugar. Com cada recordação, a lembrança deste lugar se enfraquece. O som se distancia, o calor arrefece. A visão empalidece como um sonho quase esquecido. Mas com uma clareza terrível, a lembrança sempre termina do mesmo jeito: o espírito de Sylvana é arrancado de lá. A dor é tão intensa que rasga-lhe para sempre a alma. O rosto sorridente de Arthas Menethil, com seu sorriso enviesado e olhos sem vida, a encara maliciosamente. Arthas a puxa de volta ao mundo. Desonra-a. O riso dele, aquele riso vazio, a lembrança disso faz com que ela se arrepie!

– Seu filho da mãe! – Sylvana berra, chutando para o lado um pedaço quebrado da armadura do Lich Rei. Sua voz, vazia e apavorante, falhou sob a força do ódio. O som ecoou por entre os picos da Coroa de Gelo, rufando pelos vales como as brumas pesadas que para sempre assombram aquele lugar terrível.

Ela se aventurou até ali, sozinha, ao antigo centro do poder dele. Chegou ao alto da Cidadela da Coroa de Gelo, onde um trono congelado avulta em um platô de neve branca. É claro que aquele garotinho egocêntrico que ela conheceu se colocaria aqui, sentado no topo do mundo. Mas onde estava ele agora? Destroçado. Sylvana não sentia mais a malevolência dele incomodando-a. A armadura quebrada jaz despedaçada diante do trono, rodeada de pedaços enegrecidos de sangue congelado, os restos daqueles que o haviam derrotado finalmente.

Sylvana lamentou não ter presenciado a destruição dele. Apanhou uma manopla quebrada, a armadura da mão que um dia empunhou a Gélido Lamento. Ele está finalmente morto. Mas por que ela se sentia tão vazia por dentro? Por que ela ainda pulsava de raiva? Arremessou a manopla para longe e a observou desaparecer nas brumas turvas.

Alta Resolução Ela não estava só. Nove espíritos luzentes cercavam o pináculo, os rostos mascarados virados para ela, as formas efêmeras suspensas no ar por asas graciosas e incorpóreas. Eram as Val'kyren, antigas donzelas guerreiras que um dia foram escravas da vontade de Arthas. Por que elas permaneciam ali? Sylvana não sabia, tampouco se importava. As criaturas não a atrapalhavam, permaneciam absolutamente mudas e imóveis, mesmo quando ela gritava e se enraivecia. Será que elas a observavam? A julgavam? Sylvana as ignorou e caminhou pela neve até o trono de Arthas.

Outra pessoa estava sentada no trono.

Inicialmente, Sylvana tratar-se do cadáver de Arthas, plantado zombeteiramente naquele lugar de honra e lacrado num bloco de gelo, mas a silhueta era completamente diferente. Ela se aproximou do trono e passou a mão pela superfície do gelo, observando a figura lá dentro. Humano, sim. Reconheceu o contorno da armadura da Aliança. Mas o cadáver estava bastante queimado, aberto como uma peça de carne assada. Ele usava a coroa de Arthas, e aqueles olhos, aquela centelha de consciência...

"Eles o substituíram!". Um novo Lich Rei ocupava o trono!

Mais uma vez, Sylvana gritou, a surpresa transformando-se em raiva explosiva. Golpeou o gelo com a palma da mão, depois com o punho. O gelo rachou. O rosto imóvel lá dentro se abriu atrás de uma teia de fraturas. Os uivos dela morreram, desaparecendo de forma vazia nas brumas que envolviam o monte. "Eles o substituíram. Isso significa que sempre haverá um Lich Rei? Idiotas." Acreditavam ingenuamente que aquele rei fantoche não começaria a corromper o mundo para atender aos próprios caprichos. Ou pior: tornar-se uma arma cega para algo ainda mais terrível.

Era um golpe cruel. Ela havia esperado chegar aqui triunfante, e não encontrar outra derrota. A vitória era vazia. Mas Sylvana se afastou do trono, se aprumou e aceitou que o ciclo iria continuar. Arthas estava morto. De que importava se outro cadáver ocupava o trono? Sylvana Correventos havia se vingado. A visão que motivara a ela e seu povo durante anos tinha finalmente se realizado. E nem uma única fibra de seu corpo ressequido e revivido se importava para onde o mundo iria daqui em diante.

Agora, estava tudo acabado. Uma parte dela estava surpresa por ainda estar de pé, mesmo sem a presença constante dele invadindo-lhe a mente. Afastou-se do trono e lentamente se virou para avaliar aquele mundo cinza e frio à volta. Seus pensamentos voltaram-se para aquele lugar arrebatador, o vislumbre vago do que a aguardava. O lar. Estava na hora.

Lentamente, Sylvana caminhou até a beira serrilhada da plataforma de gelo. Lá embaixo, encoberta pelas nuvens, estava a floresta de aguilhões de saronita que ela havia visto mais cedo. A queda não seria o bastante para matá-la: sua carne revivida era praticamente indestrutível. Mas os aguilhões, o sangue endurecido de um Deus Antigo, além de dilacerarem o corpo, também destruiriam sua alma. Ela ansiava por isso. Um retorno à paz. O trabalho que ela havia iniciado nas florestas de Luaprata estava finalmente concluído com a morte de Arthas.

Sylvana tirou o arco do ombro e o jogou de lado. A arma ressoou ao chocar-se contra o gelo. Em seguida, retirou a aljava, derramando flechas que cascatearam pela lateral da Cidadela da Coroa de Gelo e desapareceram uma a uma na neblina. A aljava vazia caiu silenciosamente no chão junto aos pés da patrulheira sombria.

O manto escuro e esfarrapado, agora solto aos ventos pela ausência do armamento, começou a chicotear o pescoço de Sylvana. Ela não sentia frio, apenas uma dor entorpecida. Em breve, sentiria nada. Já antecipava o espírito chegando a um refúgio de tranquilidade pela primeira vez em quase uma década. Sylvana deslocou o peso em direção à beira do abismo e fechou os olhos.

Como se fossem uma, as Val'kyren se viraram na direção de Sylvana em silêncio.

Sylvana Correventos