Universo Expandido

Varian Wrynn:O Sangue de nossos Pais

por E. Daniel Arey

Algo havia acordado o rei Varian Wrynn de um sono profundo. Enquanto ele permanecia imóvel na escuridão, o débil ruído de um gotejar distante ecoava nas muralhas da Bastilha Ventobravo. Um sentimento ruim se apoderou do nobre rei, pois tratava-se de um som já conhecido.

Varian se moveu pé ante pé até a porta e encostou a cabeça no carvalho perfeitamente polido, tentando ouvir. "Nada. Nenhum movimento. Nem passos". Então, ao longe, escutou o abafado murmúrio de uma multidão em festa, vindo de algum lugar fora do castelo. "Será que dormi demais e perdi a cerimônia?"

Mais uma vez o estranho gotejar se fez ouvir claramente, agora ecoando no chão gelado. Varian abriu a porta devagar e se inclinou para observar o corredor. Tudo escuro e silencioso. Mesmo as tochas pareciam tremeluzir com uma luz fria que se extinguia logo que acesa. Para um homem que se permitia poucas emoções, Varian sentiu com muita intensidade algo se contorcer dentro de si – algo velho, ou novo, talvez há muito esquecido. Era como um sentimento infantil... "medo?"

Varian afastou a ideia imediatamente. Ele era Lo'Gosh, o Lobo Fantasma. O gladiador guerreiro que enchia de medo igualmente corações inimigos e aliados. E mesmo assim ele não conseguia afastar o sentimento primevo de inquietação e perigo que agora tomava-lhe o corpo.

Andando até o corredor, Varian percebeu que seus guardas não estavam em posição. "Estarão todos ocupados demais com o Dia da Lembrança? Ou há algo mais sinistro no ar?"

Esgueirou-se cuidadosamente pelo corredor mal iluminado, adentrando a enorme e familiar sala do trono da Bastilha Ventobravo, cujas paredes vultosas agora pareciam diferentes, maiores, mais sombrias e vazias. Do distante teto de pedra, lonas se dependuravam como teias extravagantes, estampadas com o leão dourado, o emblema do orgulho e da força da grande nação de Ventobravo.

Alta Resolução Varian ouviu um grito abafado na escuridão e, em seguida, um súbito arrastar de pés. Seus olhos logo se voltaram para o chão, onde uma trilha de sangue se dirigia claramente para o centro da sala. Nas trevas, ele mal pôde distinguir senão uma luta agitada entre duas silhuetas. Quando seus olhos se acostumaram ao pretume viu um homem de joelhos, ensanguentado e ferido, e ao lado uma figura feminina hostil, espreitando das sombras.

Varian conhecia bem aquela silhueta distorcida que denunciava a natureza do corpo e da alma. Era Garona Meiorken, parte draenaia, parte orquisa – a assassina criada pela mente obscura de Gul'dan.

Varian quedou-se aturdido e incrédulo enquanto o sangue fresco escorria pelo fio da lâmina na mão da meio-orquisa, chegando à ponta afiada e gotejando... caindo... até se transformar numa pétala de rosa carmesim no chão de mármore. Memórias inundaram a mente de Varian numa onda de percepção. A armadura. As vestes reais. O homem no chão era seu pai, o rei Llane!

Garona olhou para Varian com um medonho sorriso coberto de lágrimas e, num movimento rápido, cravou a lâmina fundo no peito do rei ajoelhado, com o brilho do aço rasgando a escuridão.

– Não! – Varian urrou se atirando para a frente, se arrastando pelo chão ensanguentado para alcançar o pai. Agarrou o corpo inerte do rei e o abraçou, enquanto o rosto da meio-orquisa lentamente esvanecia-se na escuridão.

– Pai! – Varian implorou, ninando o corpo do pai.

Os lábios de Llane se contorceram de dor e se abriram, deixando escorrer um delicado fio de sangue vermelho-vivo. E com um suspiro pútrido, o velho rei formou algumas palavras quebradiças: – É assim... que sempre termina... para os reis Wrynn.

Então os olhos de Llane rolaram para trás e a mandíbula se abriu numa expressão hedionda. Do fundo da garganta do rei emergiu uma vibração. Varian quis arrancar os olhos, mas percebeu que não conseguiria. Na sombra da boca entreaberta do pai algo se moveu, cintilando na luz mortiça.

Subitamente, vermes irromperam da boca do rei morto. Milhares e milhares de insetos se contorciam, obliterando a face acinzentada de Llane. Varian tentou se afastar, mas os vermes o cobriram, agitando-se e consumindo-lhe o corpo enquanto ele emitia um último grito de agonia.

***

Varian se endireitou na cadeira com o grito horrendo ainda ecoando nos ouvidos. Viu-se sentado à mesa com um mapa à frente, numa das câmaras privativas no alto da Bastilha Ventobravo. Raios mornos de sol invadiam a sala acompanhados do bramido de uma multidão ruidosa. "As celebrações do Dia da Lembrança já começaram."

De suas mãos pendia um medalhão prateado e mal polido, fechado firmemente. Varian instintivamente tentou abri-lo, como havia feito incontáveis vezes, mas ele continuava trancado como sempre.

Varian Wrynn