As elevadas energias da Sede dos Naarus inspiravam paz interior até no mais sanguinário dos peregrinos guerreiros e causavam maravilhamento até nos habitantes mais cínicos de Azeroth. O vulto que flutuava diante da Sede há muito já se reconfortava com essa coluna de Luz. Velen olhou para fora de sua câmara de meditação, buscando um insight... em todas as conexões, grandes ou pequenas, nas quais ele poderia perceber as linhas do futuro. Ao longo dos últimos meses, as linhas pareciam se fragmentar cada vez mais.
Enquanto o Profeta dos draeneis meditava, com pernas cruzadas e mãos pousadas nos joelhos, os cristais que refletiam as energias do ancião fulguravam e pulsavam e turbilhonavam ao redor dele, sem padrões aparentes, apenas caos. E as visões, as possibilidades de amanhãs infinitos, o atacavam.
Uma gnomida exausta e imunda arrastava um dispositivo estranho pela poeira de Terralém, deixando sulcos gêmeos que serpenteavam sem fim nas dunas atrás dela. Etéreos, com energias envoltas em panos, simplesmente observavam o esforço da gnomida, nem ajudando nem impedindo o duro progresso.
O vindicante Maraad batalhava um inimigo oculto com seu imenso martelo cristalino, e então caiu de joelhos, com o peito trespassado por uma lança oleosa das trevas mais negras, cuja lâmina emitia uma fumaça doentia.
A silhueta blindada de Asa da Morte preenchia o céu enquanto o Aspecto sobrevoava um mundo calcinado e pousava numa árvore carbonizada e partida, tão gigantesca que só poderia ser Nordrassil. Suplicantes envoltos em mantos de roxo profundo se atiravam numa fenda vulcânica no solo.
Med'an, o Guardião de Tirisfal, chorava, com lágrimas que pareciam deslocadas naquele rosto de feições órquicas, e olhos tão vulneráveis e magoados que qualquer pessoa que os fitasse teria o coração partido.
Mas não Velen.
Alta Resolução Havia muito que o Profeta aprendera a se distanciar das visões, de modo a não enlouquecer. O terceiro olho profético já o acompanhava há tanto que as premonições era tão naturais quanto respirar. Os fragmentos de cristal ata'mal tinham tornado Velen a sentinela de universos alternativos sem fim, às vezes imersos em seus próprios eclipses de trevas, gelo ou fogo. Velen não se entristecia por esses futuros, nem se enlutava pelas suas extinções, nem mesmo gritava em exaltação por seus triunfos. O Profeta apenas os lia, observando as tramas de suas tapeçarias em busca de caminhos que levassem ao triunfo absoluto, no qual a vida e a Luz rechaçariam as trevas e salvariam tudo da aniquilação. O que importavam os eventos menores – tão valorizados pela maioria dos mortais, até mesmo pelos draeneis – quando comparados à responsabilidade intimidadora de garantir a sobrevivência de toda criação?
Velen vasculhou os destroços das imagens que se moviam muito rápido, tentando fixar algo, encontrar um marco do caminho. Mas isso lhe escapava.
Anduin Wrynn se ajoelhou na terra macia e pousou as mãos numa açoitadeira, uma das últimas mutações restantes entre aquelas causadas pela queda da Exodar em Azeroth. Dois draeneis ladeavam a criatura, prendendo-a para o príncipe, usando de força gentil para evitar que ela se libertasse e fugisse da Luz canalizada pelas mãos do rapaz. Os draeneis outrora assumiram a missão de reparar a destruição causada pela chegada deles a este mundo mas, após completar a maior parte da tarefa, eles perceberam que seu poderio se fazia necessário em outros lugares: primeiro na guerra contra a Legião Ardente, em seguida na marcha pelo domínio gélido do Lich Rei e, agora... no mundo pós-Cataclismo.
Algumas das monstruosidades disformes tinham sido ignoradas na confusão, vagando tragicamente em loucura e dor, desviadas de seu propósito original por um acidente terrível. Na primeira vez que Anduin viu uma delas, ele não sentiu nojo, mas tristeza. Eu tenho de ajudar. Eu tenho de tentar. Assim que teve uma pausa nas lições com Velen, o príncipe acorreu às matas e campos da Ilha Névoa Lazúli, seguido pela escolta de draeneis. Agora, os guardas serviam de grilhões improvisados enquanto o rapaz rogava à Luz que curasse o mutante, que acalmasse sua loucura. Anduin não entendia o que havia de errado com a coisa. Não precisava entender.
A Luz entendia. Seu poder era canalizado pelo jovem príncipe, que era usado como um meio para corrigir a criatura que se contorcia sob as mãos dele. O ato de cura sempre fez Anduin se sentir como a chave numa fechadura, a ferramenta aplicada ao uso correto, e ele tinha provado seus talentos a si mesmo em seu tempo com os draeneis. Sua confiança tinha se desenvolvido sob a tutela da raça antiga, particularmente com as aulas do Eterno, o Profeta. Quer você perceba isso ou não, pai, eu estava certo. Magni estava certo. Este é o meu chamado.
