O portão

Arquivos Horádricos
“Eu não tinha escolha,” sussurrou Gregório, baixinho, esfregando os nós dos dedos freneticamente.“Eu tinha que fechá-lo! Era meu dever, meu único dever”.
A sinfonia que tocava era insuportável, fazendo o homem levar as mãos aos ouvidos. Do lado de fora da casamata, gritos, choros e batidas ecoavam, acompanhados pelo som das unhas que arranhavam o metal e se quebravam. “Meu dever”, repetia o homem, como os mantras que os monges de Ivigorod entonavam, com a exceção de que este não lhe trazia a menor paz de espírito, por mais que se apegasse a ele.
“Mantenha a atenção na praça soldado! Eu quero saber quando eles alcançarem a muralha!”Disse o capitão da guarda rispidamente, enquanto inspecionava as casamatas espalhadas pela muralha que cercava o centro da cidade. Gregório sentiu-se nauseado, obrigado a olhar para a multidão desesperada. “Sim senhor,” disse mecanicamente, sem o menor entusiasmo ou convicção. Não bastasse ter condenado todas aquelas pessoas, assistiria o massacre da primeira fila. Há alguns anos atrás, todos os moradores estariam protegidos atrás dos muros, já que o “centro” atual era tudo o que havia, uma bela e segura cidade murada. Mas a prosperidade chegou e a cidade cresceu. A expansão da muralha, contudo, foi plenamente rechaçada pelos moradores por seu alto custo material e humano, além do que, na ocorrência de qualquer eventualidade, bastaria correr para a área segura. Os cidadãos, obviamente, não contavam com a covardia do prefeito ou com a rapidez do ataque dos homens- bode.
O soldado ateu-se a esta linha de pensamento. “Eles são responsáveis por sua própria desgraça,” falou para si mesmo enquanto observava a turba, que agora urinava e cagava nas próprias vestes. A culpa não perdeu uma grama sequer. Só lhe restava assistir e rezar para que as pobres e desafortunadas almas presas do lado de fora tivessem uma morte rápida.
O primeiro homem-bode apareceu no limiar da praça e, seguindo o exemplo da multidão, Gregório molhou as próprias calças. Na mão esquerda, o mostro carregava um enorme machado sujo de sangue, e na direita, um feto humano, semidevorado. As pessoas espremeram-se com ainda mais força contra o portão, fazendo a estrutura de ferro gemer. Mais das criaturas juntaram-se à primeira, portando desde espadas e lanças até cajados e arcos. Movimentavam-se sem pressa, saboreando o momento, deleitando-se na expectativa da orgia de sangue que se seguiria. A expressão nos rostos dos caprinos lembrava vagamente um sorriso humano.
E foi com aquela expressão que iniciaram sua lenta caminhada em direção ao portão.
Enquanto a multidão formava uma massa cada vez mais compacta junto à muralha, Gregório vislumbrou uma cena estranha no meio da praça. Um homem trajando uma pesada couraça de ferro encontrava-se ajoelhado junto a uma criança pisoteada. Um tomo antigo estava aberto em sua mão esquerda e sua boca recitava o conteúdo com bastante atenção. Luz emanava da mão direita, pousada no coração do menino, que se levantou e tornou a se juntar aos desesperados. Para o espanto do vigia, o homem de armadura não seguiu o garoto na tentativa fútil de salvação. Ele virou e encarou os caprinos. Fechou o livro e deixou- o cair enquanto se erguia. O tomo, preso por uma fina corrente de ferro, repousou em sua cintura.
Os monstros não pareceram notar, ainda focados nas presas que se acotovelavam a frente. Um clarão emanou do homem, e o sorriso dos khazra desapareceu, substituído por um ódio salivante. Somente o soldado da luz estava em suas mentes agora. Gregório reconheceu o homem como um membro da ordem dos templários, embora não pudesse imaginar o que o atraíra àquela cidade.
O templário puxou duas grandes facas que se encontravam presas às suas costas e avançou com velocidade brutal em direção ao primeiro homem- bode. O golpe, como uma tesourada, arrancou a cabeça do caprino, que se esvaiu em sangue. O movimento, contudo, não reduziu o poder da arrancada, que atordoou os demais demônios. Quatro mais caíram vitimas das lâminas, mortos ou incapacitados. A reação não tardou. Um machado, brandido por guerreiro enorme, acertou o flanco esquerdo do templário, atravessando a armadura e estilhaçando o osso. Flechas perfuraram as pernas na altura dos joelhos, derrubando-o. O monstro com o machado aproximou-se para terminar o serviço.
Gregório preparou a besta e atirou. Por mais que suas mãos tremessem, o virote acertou o grande khazra em cheio, estourando o globo ocular e atingindo o cérebro. Seus colegas na muralha, inspirados por seu exemplo, fizeram o mesmo. O capitão berrou, frustado pela antecipação do ataque, mas nada fez além de xingar.
Uma chuva de virotes e flechas choveu sobre os caprinos, enquanto o templário se arrastava pelo chão, arrancando as hastes de madeira que saiam dos joelhos. Um novo clarão de luz e sua mobilidade melhorou um pouco. Um caprino pulou em cima dele, com sede de sangue. O guerreiro sagrado tateou o chão em busca das facas, sem sucesso.
O monstro também parecia estar desarmado, pois tentava arrancar um pedaço do rosto do templário com os dentes amarelados. O homem agarrou os chifres da besta com toda a força que conseguiu reunir e torceu, quebrando o pescoço. Livrou-se do cadáver e continuou rastejando em direção ao muro.
Gregório já estava ficando sem setas, quando os khazra recuaram, massacrados. O templário já estava de pé, derramando mais luz sobre os feridos no portão. O vigia sentiu aliviado, com alguma sorte, nenhum deles morreria em consequência do fechamento prematuro do portão. Abandonou seu posto e ativou o mecanismo de abertura, ignorando os protestos do capitão. Correu e ajoelhou-se diante dos feridos, oferecendo toda a ajuda que podia. Seu olhos encontraram os do templário, que acenou e sorriu.
Nada foi dito.
Ótima história, espero que o lançamento da expansão reviva esta parte do fórum.
massa...

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