A recompensa

Arquivos Horádricos
Valéria sentiu a bile queimar a garganta enquanto descia a escadaria dos esgotos de Caldeum. Uma marola de água podre encharcou a base de sua capa e infiltrou-se pelas perneiras de aço, provocando um arrepio cruel. Apesar da sensação ruim, a jovem sentiu uma pontada de satisfação. Depois de mil e quinhentos anos de sono induzido, seu corpo ainda respondia plenamente ao ambiente. Era um bom sinal, um indicativo de que o Profeta tinha deixado seus acólitos em plenas condições de enfrentar a catástrofe que cairia sobre o mundo.
A sibila seguiu a corrente de podridão e bosta cuidadosamente, usando seu cajado como apoio. Para ela bastava já estar molhada até os joelhos. A menção ao Profeta a fez lembrar de sua missão e do herói que deveria encontrar. Os mercadores diziam que ele havia se dirigido à Alcarnus e estava usando Caldeum como base de operações. Com base nessa peça de informação, ela havia decido esperar pelo seu retorno na grande cidade em vez de se aventurar pelo deserto.
Foi quando se apresentou a oportunidade da caçada. Um dos lobos de ferro se aproximou com notícias de uma grande besta nos esgotos, que vinha agarrando e devorando os incautos que transitavam perto dos bueiros. Gorfax, O Arranca-Tornozelo, era nome que cidadãos haviam dado à fera, sem dúvida inspirados pela condição dos poucos sobreviventes. Como o herói havia saído há pouco tempo, havia tempo de sobra para matar o monstro e recolher a recompensa, além de testar suas habilidades mágicas.
Um rugido trouve Valéria de volta ao presente. Sua mão apertou-se entorno do cajado e do pegador do espelho que cobria seu antebraço como um broquel. Ela olhou em volta e respirou aliviada. Nada nas proximidades. Seguiu em frente com mais alguns passos cautelosos e quando se deu conta já sentia o gosto azedo da água que entrava em sua boca e narinas. O chão simplesmente havia se movido em baixo de seus pés. A sibila estava agora de costas e completamente coberta pela água, seu cajado e espelho desaparecidos. Levantou a cabeça acima da linha d’água e cuspiu. Uma dor lancinante percorreu sua perna esquerda e voltou a sentir o gosto de urina e fezes quando começou a ser arrastada em direção contrária a corrente.
Era um enorme crocodilo que puxava a jovem. Sua perna havia por pouco escapado de ser decepada pelas mandíbulas da besta. Os dentes haviam atravessado a armadura e agora forneciam pegada para o arrastão mortal. Enquanto lutava para respirar percebeu que sem o espelho seu plano de hipnotizar e esmagar a cabeça do monstro com sua bota era inútel. Sem o cajado também estava impedida de conjurar magias mais complexas. Aquela missão teria de ser concluída do jeito antigo.
Com muito esforço, moveu-se para conseguir um pouco de folego. Uma onda de pura energia arcana avançou pelo túnel, arrancando pedaços das paredes e do teto. A dor na perna intensificou-se e a sibila parou de ser arrastada. A fera havia desaparecido. Valéria moveu-se em direção a parede apoiando suas costas. Levantou a perna e riu ao encontrar quase um conjunto completo de dentes presos na perneira. Ficou de pé com dificuldade e seguiu em direção a saída, onde encontrou seu equipamento boiando. Não se preocupou em procurar o monstro. Vivo ou morto, os dias de terror de Gorfax tinham acabado. Saindo do tunel, deixou o sol escaldante queimar um pouco daquela sujeira e foi recolher as peças de ouro que lhe eram devidas, das quais gastaria quase metade nos curandeiros.
Três dias depois, Gorfax foi morto a pauladas e pedradas pelas crianças de Caldeum, que passaram a perseguir a sibila para coletar suas merecidas moedas.
Excelente história,uma pena poucas pessoas chegarem nessa parte do forum....
Muito criativo parabens, uma ótima história

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